Adianta dizer o que sente
Quando não sabe o sentido?

O que há num simples nome?

O mundo inteiro prestes a explodir.
O poder de dizer não. Ou pior,
não dizer absolutamente nada.

E se encontrar sussurrando com o copo entre os lábios
Ou com o travesseiro entre os ouvidos
Sempre de olhos fechados.

É possível que meu apelo chegue
Ou que, de susto, você desapareça?
O que há num simples nome que justifique
Tanta falta de coragem
Tanto corpo petrificado em silêncio
Gritando por dentro

Pelo amor de deus! me deixa dizer
Teu nome
Não me deixa arder com a palavra
na boca
A língua na ponta.

Não me engole
que te darei indigestão
Não me provoque
que te faço chover

Esse desespero vai sair despe
jando água
do balde

Músculo tensionado
Mandíbula travada
Boca aberta

Poema de Samyres Amaral

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O atraso

     Checou o relógio mais uma vez na esperança de que, se olhasse fixamente para os ponteiros, eles eventualmente andariam mais devagar. O movimento do contador é rítmico, preciso e, irritantemente, a atrasava. Cada vez que ele não tardava em se movimentar, um minuto a mais teria que ser explicado. Até os quinze minutos poderia nada dizer, as pessoas não tendem a causar constrangimentos por conta de quinze passos do relógio. Porém, muito precisa ser explicado em nome das considerações alheias quando esses quinze passos acabam, por indecência do contador, se multiplicando por quatro. Uma volta inteira de atraso. A partir daí o outro não encontra mais justificativas sozinho. Além disso, não é mais possível culpar o lento elevador ou o passo das pessoas na rua. Soa canalha também dizer que o trânsito ou a chuva, hoje inconvenientemente ausentes, foram terríveis obstáculos à pontualidade. Afinal o contra-argumento, da simples falta de planejamento, já habita a ponta da língua. Aqui, nesta cidade, o trânsito é tão parte da rotina a cidadã quanto respirar.

         A única saída, portanto, seria ser portadora de notícias graves e imaginárias. Porém, não se pode alegar algo que rapidamente seja descoberto como mentira, por exemplo, a morte de um parente. É preciso que a lorota esteja nos limiares da possibilidade e não possibilidade, como a indisposição de uma avó. A indisposição de uma avó é sempre argumento socialmente aceito para um atraso. Ninguém é desprovido de humanidade a ponto de deixar uma avó, além de indisposta, sozinha em casa. Também está para nascer pessoa que proteste contra o atencioso gesto de se cuidar de uma avó. Mesmo que ele resulte em atrasos de qualquer natureza.

         Um plano perfeito, pensou. Porém, a insinceridade planejada embora não apresente culpa, logo mostra suas manchas de incoerência. Se o motivo da balela vem do princípio nobre de não magoar os sentimentos de terceiros a ponto de lhes informar que apenas estive sentada em casa aguardando o passar dos minutos como faço agora no transporte público, como é possível esquecer a tão atenciosa mensagem avisando o possível atraso por conta da indisposição da avó? Ora, isso terá de passar como mero sentimentalismo. O zelo para com a avó é tão grande que no meio das atribulações e preocupações, foram esquecidos o relógio e o celular. Este que agora vibra. Que agora vibra e deixa as mãos trêmulas não se sabe se de nervosismo ou de simples artimanha tecnológica. Deveria dizer que precisou levar a avó no hospital? É difícil responder onde se está quando se sabe que a resposta trará infelicidade. Talvez o silêncio traga menos ansiedade que uma resposta vaga como estou a caminho. Se alegar que não viu, não há como se provar o contrário. Imagine a quantidade de provas que são necessárias para se afirmar, com segurança, que algo foi ou não foi visto por alguém. Parece uma tarefa para o impossível.

       A mentira, embora socialmente tranquilizadora, tem efeitos exaustivos na cidadã comum. Há de se dizer comum porque existem pessoas a quem a culpa não gera nenhum remorso e, com os escrúpulos escassos, fala o que quer à vontade. Não é o caso na situação presente e, enquanto desde do ônibus fora do ponto e corre para o seu destino, já decidiu deixar a saúde de sua vó em paz e os hospitais sem sua presença ficcional. Iria apenas se desculpar e perguntar se é possível deixar esse incidente – para culpar indiretamente o acaso – para trás e seguir com as atividades planejadas. Afinal aquela história da avó embora muito tenha servido para matar a ansiedade enquanto corria o tempo, lhe deu uma enorme dor de cabeça.

            Obstinada, toca a campainha.

Texto de Samyres Amaral

Verso pranto

n                             m

ã                             a

o                             s

v                             m

e                             i

j                              n

o                             h

g                             a

r                              c

a                             a

ç                             r

a                             n

e                             e

m                            é

s                              t

o                             r

f                              i

r                              s

e                              t

r                              e

 

Poema de Samyres Amaral

Silêncio e Cantiga

                Era o funeral da minha família, pelo menos eu achava. Uma chuva irritante e fina caía no meu rosto como agulhas finas. Eu não sentia frio, só o estardalhaço dos meus sapatos no concreto agora encharcados de poças. Ninguém prestava atenção, somente eu. Maldisse a quantidade de fumaça que inalei todos aqueles anos e o ligamento frágil do joelho que fazia cada aterrissagem sufocar um grito. Sabia que pintava as ruas de vermelho enquanto vencia quarteirões daquelas casas iguais, mas não me lembrava de ter me machucado.

            Eu estava sempre ralado de um tombo do carrinho de rolimã e descalço de fazer das sandálias marcações de gol. As ruas estreitas atrapalhavam a logística do jogo se um carro precisasse passar, mas tinham bons becos e esconderijos para jogos de perseguição. As telhas velhas e quebradiças ainda eram as mesmas que as mães desesperadas imploravam para seus filhos não andarem em cima.

            Há lugares que gostaríamos de não lembrar que conhecemos. Ao final da rua, a modesta casinha azul jazia com a porta aberta balançando de acordo com o vento. Apertava e soltava o punho cada vez mais depressa, mas o movimento me incomodava. Cada passo para frente significava um não voltar atrás. Estava a caminho do meu passado, que havia prometido deixar. Não posso ir embora, não quero voltar, preciso chegar e quero desaparecer.

            Nunca terei filhos, pois ter Esperanza já era como ser pai. Seus olhos de amêndoas eram iguais aos meus. Gostava de vê-la brincar ao sol, a íris iluminada tinha cor de madeira velha e o cheiro também, se prestasse atenção. Sempre estive mais com ela que meus pais, por isso quando fui embora quis levá-la comigo, mas eles insistiram que ficariam com ela. Bom, que a levem com vocês para o túmulo, pois é para lá que estão indo.

            Mordo a língua para abafar o grito e o arrependimento. O passado arrancou as lembranças de minha casa e chacoalhou até deixar tudo em ruínas, o sofá onde costumávamos assistir televisão estava revirado e o aparelho agora em pedaços, junto com cortinas rasgadas, mesas reviradas e a parede das escadas com marcas de unha e sangue. A pressão no peito subia para a cabeça e eu não conseguia trazer ar aos pulmões, a cena ia ficando turva e embaçada conforme o absurdo se fazia sentir pela primeira vez.

            Quando estava em casa, minha mãe era atenciosa. Deixava que dormíssemos em sua cama e cantava para nós uma canção de ninar que aprendeu com nossa avó. Se estava viva, não a conhecíamos. A música era um antídoto para os pesadelos de Esperanza e ficávamos sempre os três abraçados enquanto ela cantava, esperando nosso pai chegar. Sempre juntos e no escuro. Como se ela pudesse me curar também deste pesadelo, murmurei um trechinho.

            A mandíbula e os punhos destravaram, deixando o corpo recobrar a sanidade. Quase não percebi que não cantava sozinho. A voz suave e rouca ao fundo me fez buscar o ar novamente, agarrei o corrimão e corri os degraus de dois em dois. O primeiro grito que dei, saiu entre um choro e um engasgo, mas o segundo arrancou de minhas cordas vocais o nome que eu não pronunciara por tantos anos. Talvez por medo, a voz se calou e meu coração despencou para o estômago. Onde está, onde está? Eu abria portas sem realmente ver, tentei uma, duas. Sua voz voltou a cantar enquanto eu encarava o quarto de meus pais.

            Os lugares que não gostaríamos de lembrar, são o que nunca esquecemos. A cama desfeita, os quadros e o espelho quebrados, e, segurando a porta do armário entreaberta, o par de amêndoas me encarava assustado, agachado e cantarolando para mamãe. Aquele segundo ficou suspenso pois ela estava bem ali e eu a tinha encontrado. Ela estava com o cabelo maior, talvez mais alta, e o mais importante é que estava viva. A seu lado o militar apontava uma arma para sua cabeça e me encarava, esperando uma reação.

Texto de Samyres Amaral

 

 

i

O que poderia ser feito já estava – o afeto. A pequena falha de deus: a lua veio mais cedo e ainda não é noite.

Aparenta, porém, pelo que anuncia o céu. Ecos longos chiam uma ventania úmida. O primeiro pingo, i, lá vem temporal.

Por que a chuva vem sempre em conta-gotas e não tudo de uma vez? Para chover é preciso ter calma. Primeiro pingo incita amigos i depois daquilo é só pitada de inundação.

Procurar marquises como se fossem sombras de um dia quente – embaixo das árvores a proteção é enganosa: os pingos são gordos de comer tantas frutas.

Apertar o passo não deixa a distância mais curta, apenas o pé. É uma sensação esponjosa, pisar. O sapato inundou de cima pra baixo – a chuva – e de baixo para cima – a poça.

Calculou a profundidade como quem não sabe se entra pela escada ou mergulha logo. Não era raso. Ondas para todos os lados.

Por um momento, para de andar. Seus cílios orvalhos deixam tudo ver como gota, um véu transparente sobre o rosto.

Escorrem pelas bochechas lágrimas que não eram suas. Um estranho prazer aquele. Desautorizada satisfação.

Sentiu inundar-se por uma solidão povoada.

Queria aquele instante.

Fechou a mão em punho,

agarrando-o.

Escorreu pelos dedo

—————————–s

                                      .

                                      .

                                      .

                                       .

 

Texto de Samyres Amaral

Hidromana

Chorar consiste no alaga

mento dos vasos lacrimais à ponto de avançar as bordas

Aos olhos fundos esse                   T    r    a    n

      s

b

      o

r

        d

a

                                                                                   m    e    n    t    o                  chega primeiro

pôr-do-sol abraço apertado elogios inesperados

 acidente guerra palavra torta pessoa morta inseto estranho

  beijo no alguém errado quando se ama beijando sabe-se lá quem

ente querido item perdido dinheiro jogado no lixo

 tombo corte acidente mordida soco

uma erupção

 vulcânica

 de

G           R

 R            R             R

R          R            I               T             O

 Á                             g                               u                         a

Tudo que sai é um

e

s

c

o

a

m

e

n

t

o

irriga o rosto

abre caminho

 nas rugas do deserto.

 

Poema de Samyres Amaral

Instruções para fazer poemas românticos

“Deixando de lado os motivos, atenhamo-nos à maneira correta de chorar, entendendo por isto um choro que não penetre no escândalo, que não insulte o sorriso com sua semelhança desajeitada e paralela. O choro médio ou comum consiste numa contração geral do rosto e um som espasmódico acompanhado de lágrimas e muco, este no fim, pois o choro a caba no momento em que a gente se assoa energicamente.” (Instruções para Chorar, Cortázar)

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Pegue o açúcar cristal da estante mais alta e espalhe pelas folhas do caderno o suficiente para adocicar as bordas das juras de amor. Sente-se em frente à mesa e descanse a caneta entre os dedos, o punho sobre o papel. Ao escrever, não visualize um rosto, mas deixe andar até a ponta dos dedos o que faz febrir a pele. Note que escrever é diferente de pensar e depois anotar no papel.

Caso nada disso seja de auxílio mexa o açúcar com canela e água. Espere o sangue descer e tente novamente no próximo mês.

Texto de Samyres Amaral 

Amor que não é mais

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eu não sei se ainda te amo ou só sinto falta do que era cômodo eu ainda te amo mas depois de tudo que fiz não daríamos mais certo penso em você quando vou cozinhar eu nunca preparava a comida as vezes faço comida a mais esquecendo que a proporção é pra um só não te quero de volta mas quero se você soubesse o que eu ando fazendo ficaria tão preocupada como você está voltei a fumar ah estou bem fui parar no hospital quando terminamos por uma febre que juro que foi emocional eu queria te pedir uma chance mas não confio em mim para fazer melhor que antes acho que você mudou você tem noção que só descobriu parte da história será que você sabe que eu estou transando com o seu melhor amigo a gente não da certo mas eu insisto que te amo como você dorme tranquilo depois de tudo que me fez tem dias que não consigo dormir porque o sono é um vale imenso de paz que não mereço eu insisto em te amar mesmo sabendo que já acabou eu sinto sua falta te quero de volta mas não consigo tenho medo te odeio não é verdade me beija agora por favor sinta o mesmo meu corpo formiga estou com taquicardia a tensão vai transbordar aos olhos a qualquer momento o que houve nada você está tremendo e você chorando seu coração está disparado não chega tão perto desculpa eu estou afasta muito arrependido do que de tudo que fiz eu também estou achei que você não queria que eu te tocasse sou eu que estou encostando então pode desculpa para de me pedir desculpa perdão nunca vou conseguir parar de dizer isso então não diga nada olha eu não fala eu preciso vai ser difícil demais sou eu e o que eu sinto eu sinto o mesmo por você o que estamos fazendo tentando amortecendo diminuindo a dor torturando o amor o que não foi poderia mas não é

Texto de Samyres Amaral

O amor está na porta

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Quebre-me, amor. Em milhões de pedaços antes que seja tarde. Pegue minhas esperanças e tire-as de mim, coloque naquela caixa que, se aberta, destrói o mundo. Olhe nos meus olhos e diga-me que sua estrela não é feita para cair na terra, que você não vai sair de onde está. Não faça movimentos bruscos, mas me empurre e saia correndo. Ou voe antes que eu te abrace novamente, antes que tudo se torne desimportante e só exista respiração, olhos fechados e peito aberto. Não é que hajam caminhos sem volta, mas depois que algo muda em você, abrem-se novas passagens, onde não fazem sentido as paisagens antigas. E se tiver apego a elas? Confortável perto das árvores, sem fugir da própria sombra… Seu peito aguenta abrigar outro espírito como seus braços parecem fazer tão facilmente? Pois o meu grita um desespero engraçado, de quem não entende o que está acontecendo, nem consegue deixar ir embora. Eu te peço que o faça, porque não sei fazer. Desaprendi ou nunca fui ensinada quando se trata de perceber antes que seja tarde. E agora já chegou o fim do dia e ainda quero ver o pôr-do-sol.

Foto: Livro “A teus pés” de Ana Cristina Cesar

Texto de Samyres Amaral