Verso pranto

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Poema de Samyres Amaral

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Silêncio e Cantiga

                Era o funeral da minha família, pelo menos eu achava. Uma chuva irritante e fina caía no meu rosto como agulhas finas. Eu não sentia frio, só o estardalhaço dos meus sapatos no concreto agora encharcados de poças. Ninguém prestava atenção, somente eu. Maldisse a quantidade de fumaça que inalei todos aqueles anos e o ligamento frágil do joelho que fazia cada aterrissagem sufocar um grito. Sabia que pintava as ruas de vermelho enquanto vencia quarteirões daquelas casas iguais, mas não me lembrava de ter me machucado.

            Eu estava sempre ralado de um tombo do carrinho de rolimã e descalço de fazer das sandálias marcações de gol. As ruas estreitas atrapalhavam a logística do jogo se um carro precisasse passar, mas tinham bons becos e esconderijos para jogos de perseguição. As telhas velhas e quebradiças ainda eram as mesmas que as mães desesperadas imploravam para seus filhos não andarem em cima.

            Há lugares que gostaríamos de não lembrar que conhecemos. Ao final da rua, a modesta casinha azul jazia com a porta aberta balançando de acordo com o vento. Apertava e soltava o punho cada vez mais depressa, mas o movimento me incomodava. Cada passo para frente significava um não voltar atrás. Estava a caminho do meu passado, que havia prometido deixar. Não posso ir embora, não quero voltar, preciso chegar e quero desaparecer.

            Nunca terei filhos, pois ter Esperanza já era como ser pai. Seus olhos de amêndoas eram iguais aos meus. Gostava de vê-la brincar ao sol, a íris iluminada tinha cor de madeira velha e o cheiro também, se prestasse atenção. Sempre estive mais com ela que meus pais, por isso quando fui embora quis levá-la comigo, mas eles insistiram que ficariam com ela. Bom, que a levem com vocês para o túmulo, pois é para lá que estão indo.

            Mordo a língua para abafar o grito e o arrependimento. O passado arrancou as lembranças de minha casa e chacoalhou até deixar tudo em ruínas, o sofá onde costumávamos assistir televisão estava revirado e o aparelho agora em pedaços, junto com cortinas rasgadas, mesas reviradas e a parede das escadas com marcas de unha e sangue. A pressão no peito subia para a cabeça e eu não conseguia trazer ar aos pulmões, a cena ia ficando turva e embaçada conforme o absurdo se fazia sentir pela primeira vez.

            Quando estava em casa, minha mãe era atenciosa. Deixava que dormíssemos em sua cama e cantava para nós uma canção de ninar que aprendeu com nossa avó. Se estava viva, não a conhecíamos. A música era um antídoto para os pesadelos de Esperanza e ficávamos sempre os três abraçados enquanto ela cantava, esperando nosso pai chegar. Sempre juntos e no escuro. Como se ela pudesse me curar também deste pesadelo, murmurei um trechinho.

            A mandíbula e os punhos destravaram, deixando o corpo recobrar a sanidade. Quase não percebi que não cantava sozinho. A voz suave e rouca ao fundo me fez buscar o ar novamente, agarrei o corrimão e corri os degraus de dois em dois. O primeiro grito que dei, saiu entre um choro e um engasgo, mas o segundo arrancou de minhas cordas vocais o nome que eu não pronunciara por tantos anos. Talvez por medo, a voz se calou e meu coração despencou para o estômago. Onde está, onde está? Eu abria portas sem realmente ver, tentei uma, duas. Sua voz voltou a cantar enquanto eu encarava o quarto de meus pais.

            Os lugares que não gostaríamos de lembrar, são o que nunca esquecemos. A cama desfeita, os quadros e o espelho quebrados, e, segurando a porta do armário entreaberta, o par de amêndoas me encarava assustado, agachado e cantarolando para mamãe. Aquele segundo ficou suspenso pois ela estava bem ali e eu a tinha encontrado. Ela estava com o cabelo maior, talvez mais alta, e o mais importante é que estava viva. A seu lado o militar apontava uma arma para sua cabeça e me encarava, esperando uma reação.

Texto de Samyres Amaral

 

 

i

O que poderia ser feito já estava – o afeto. A pequena falha de deus: a lua veio mais cedo e ainda não é noite.

Aparenta, porém, pelo que anuncia o céu. Ecos longos chiam uma ventania úmida. O primeiro pingo, i, lá vem temporal.

Por que a chuva vem sempre em conta-gotas e não tudo de uma vez? Para chover é preciso ter calma. Primeiro pingo incita amigos i depois daquilo é só pitada de inundação.

Procurar marquises como se fossem sombras de um dia quente – embaixo das árvores a proteção é enganosa: os pingos são gordos de comer tantas frutas.

Apertar o passo não deixa a distância mais curta, apenas o pé. É uma sensação esponjosa, pisar. O sapato inundou de cima pra baixo – a chuva – e de baixo para cima – a poça.

Calculou a profundidade como quem não sabe se entra pela escada ou mergulha logo. Não era raso. Ondas para todos os lados.

Por um momento, para de andar. Seus cílios orvalhos deixam tudo ver como gota, um véu transparente sobre o rosto.

Escorrem pelas bochechas lágrimas que não eram suas. Um estranho prazer aquele. Desautorizada satisfação.

Sentiu inundar-se por uma solidão povoada.

Queria aquele instante.

Fechou a mão em punho,

agarrando-o.

Escorreu pelos dedo

—————————–s

                                      .

                                      .

                                      .

                                       .

 

Texto de Samyres Amaral

Hidromana

Chorar consiste no alaga

mento dos vasos lacrimais à ponto de avançar as bordas

Aos olhos fundos esse                   T    r    a    n

      s

b

      o

r

        d

a

                                                                                   m    e    n    t    o                  chega primeiro

pôr-do-sol abraço apertado elogios inesperados

 acidente guerra palavra torta pessoa morta inseto estranho

  beijo no alguém errado quando se ama beijando sabe-se lá quem

ente querido item perdido dinheiro jogado no lixo

 tombo corte acidente mordida soco

uma erupção

 vulcânica

 de

G           R

 R            R             R

R          R            I               T             O

 Á                             g                               u                         a

Tudo que sai é um

e

s

c

o

a

m

e

n

t

o

irriga o rosto

abre caminho

 nas rugas do deserto.

 

Poema de Samyres Amaral

Instruções para fazer poemas românticos

“Deixando de lado os motivos, atenhamo-nos à maneira correta de chorar, entendendo por isto um choro que não penetre no escândalo, que não insulte o sorriso com sua semelhança desajeitada e paralela. O choro médio ou comum consiste numa contração geral do rosto e um som espasmódico acompanhado de lágrimas e muco, este no fim, pois o choro a caba no momento em que a gente se assoa energicamente.” (Instruções para Chorar, Cortázar)

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Pegue o açúcar cristal da estante mais alta e espalhe pelas folhas do caderno o suficiente para adocicar as bordas das juras de amor. Sente-se em frente à mesa e descanse a caneta entre os dedos, o punho sobre o papel. Ao escrever, não visualize um rosto, mas deixe andar até a ponta dos dedos o que faz febrir a pele. Note que escrever é diferente de pensar e depois anotar no papel.

Caso nada disso seja de auxílio mexa o açúcar com canela e água. Espere o sangue descer e tente novamente no próximo mês.

Texto de Samyres Amaral 

Amor que não é mais

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eu não sei se ainda te amo ou só sinto falta do que era cômodo eu ainda te amo mas depois de tudo que fiz não daríamos mais certo penso em você quando vou cozinhar eu nunca preparava a comida as vezes faço comida a mais esquecendo que a proporção é pra um só não te quero de volta mas quero se você soubesse o que eu ando fazendo ficaria tão preocupada como você está voltei a fumar ah estou bem fui parar no hospital quando terminamos por uma febre que juro que foi emocional eu queria te pedir uma chance mas não confio em mim para fazer melhor que antes acho que você mudou você tem noção que só descobriu parte da história será que você sabe que eu estou transando com o seu melhor amigo a gente não da certo mas eu insisto que te amo como você dorme tranquilo depois de tudo que me fez tem dias que não consigo dormir porque o sono é um vale imenso de paz que não mereço eu insisto em te amar mesmo sabendo que já acabou eu sinto sua falta te quero de volta mas não consigo tenho medo te odeio não é verdade me beija agora por favor sinta o mesmo meu corpo formiga estou com taquicardia a tensão vai transbordar aos olhos a qualquer momento o que houve nada você está tremendo e você chorando seu coração está disparado não chega tão perto desculpa eu estou afasta muito arrependido do que de tudo que fiz eu também estou achei que você não queria que eu te tocasse sou eu que estou encostando então pode desculpa para de me pedir desculpa perdão nunca vou conseguir parar de dizer isso então não diga nada olha eu não fala eu preciso vai ser difícil demais sou eu e o que eu sinto eu sinto o mesmo por você o que estamos fazendo tentando amortecendo diminuindo a dor torturando o amor o que não foi poderia mas não é

Texto de Samyres Amaral

O amor está na porta

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Quebre-me, amor. Em milhões de pedaços antes que seja tarde. Pegue minhas esperanças e tire-as de mim, coloque naquela caixa que, se aberta, destrói o mundo. Olhe nos meus olhos e diga-me que sua estrela não é feita para cair na terra, que você não vai sair de onde está. Não faça movimentos bruscos, mas me empurre e saia correndo. Ou voe antes que eu te abrace novamente, antes que tudo se torne desimportante e só exista respiração, olhos fechados e peito aberto. Não é que hajam caminhos sem volta, mas depois que algo muda em você, abrem-se novas passagens, onde não fazem sentido as paisagens antigas. E se tiver apego a elas? Confortável perto das árvores, sem fugir da própria sombra… Seu peito aguenta abrigar outro espírito como seus braços parecem fazer tão facilmente? Pois o meu grita um desespero engraçado, de quem não entende o que está acontecendo, nem consegue deixar ir embora. Eu te peço que o faça, porque não sei fazer. Desaprendi ou nunca fui ensinada quando se trata de perceber antes que seja tarde. E agora já chegou o fim do dia e ainda quero ver o pôr-do-sol.

Foto: Livro “A teus pés” de Ana Cristina Cesar

Texto de Samyres Amaral

Escolha

Fernanda Coutinho (19 of 28)

Só vemos aquilo que olhamos. Olhar é um ato de escolha. Como resultado dessa escolha, aquilo que vemos é trazido para o nosso alcance. John Berger

Mas se é tão presente, que vazio não poderia ser preenchido, naquela ausência?

Se é tão quente o ronronar do seu peito, como um leão filhote em noites de lua cheia, há quem interessa todas as horas que passei à frente de mim mesma pensando, o que é real?

Por que a mim ainda chama a atenção do olhar?

A verdade do ato é escolher.

Ver.

O ato.

A escolha.

Que não é uma questão de preferir, mas é tudo que te encadeia como serumano.

O real resiste, não é o que pode ser, nem pode ser colocado em potinho, pois a mera existência faz derreter relógios, que dizem ser ficcionais.

Porém, se escolho ver angústia e trauma, também opto por ver as noites de lua cheia e os fins de tarde de sol na tua juba.

Tens tanto que crescer, leãozinho.

E se tua presença é o que basta para eu sentir tudo diferente, que se explodam os sentidos. Em cometas,

planetas.

Em uma constelação dentro de mim, neurônios em rede, a borda negra do inconsciente.

Que cintilem apenas presenças, que me fazem sobreviver.

Ao deserto, cheio de água doce, encontro rio e mar.

De sertão amar, caminhei muitos trilhos.

Fiz dos cactos, meus espinhos, alívio com a mais bela flor, dos piores momentos. Ela soube ser.

Mesmo que os casais tentassem dar-lhe sentido, ela apenas era.

E, assim como ela, somos.

Obrigada.

Texto de Samyres Amaral

De onde você é?

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“Perder-se também é caminho.” Clarice Lispector

Implodi minha rotina para ser uma fugitiva no refúgio. A única coisa que me de-limitava era a pele que me reveste, escura, vermelha e manchada por tanto pó de maquiagem e sol sem protetor. Calças confortáveis e lenços coloridos me acompanharam na jornada do não-saber. Onde estava, o que se falava, onde ir, quem eu era. Mini-filmes passavam pela minha cabeça, com situações as quais jamais viveria enquanto meus dias eram preenchidos por lugares que eu nunca sonhara viver. Sequer sabia que existiam. Como as crianças e os cachorros, eu olhava para tudo como se fosse uma grande novidade que eu queria olhar, sentir, cheirar e as vezes até urinar em – nunca se sabe o que muito álcool pode fazer ao organismo de alguém. – E as noites desabavam em mim sem forças para trocar de roupa ou sonhar.

“De onde você é?” Perguntavam. E eu sempre me questionava se seria inapropriado responder “Não sei.” Não sei, porque só me senti em casa, depois de tanto tempo, estando perdida nesse local estranho e completamente confortável dentro de mim. Tornei-me refúgio e não mais imigrante de corpos e almas alheias. Permiti viver minha própria vida e finalmente entender que ela só se de-limita pelas fronteiras do meu próprio espírito. Quando uma sede insaciável de não voltar me implora que eu permaneça longe e perdida por aqui, para sentir-me cada vez mais em casa, de onde eu sou? Daqui? De lá? “Não sei.”

Ao mesmo tempo, a secura da minha pele, o rachar da minha boca – que as vezes me faz sentir o gosto de sangue – as bolhas de azia do meu estômago e o aperto no meu coração ao lembrar de um rosto, me mostram que cada dia em uma cama diferente não é o meu lugar, nem onde vou ficar. A incerteza tem seu ponto de encontro com a verdade onde reconheço que sim, nasci em terra firme. Mas a grande reticência das minhas emoções em admitir é: será possível para mim, encontrar pertencimento sem dependência e submissão? Saberei eu preencher minhas próprias veias com meu espírito e compartilhar a alegria dos momentos ao invés de me subtrair pelo excesso de passado e peso do futuro? Porque se sim, ei de descobrir que tão importante quanto grandes asas, me completa por inteiro ter raiz profunda.

Mas e se não?

Texto de Samyres Amaral 

Desenhando espirais

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Escritas permeadas de imagens são no senso comum pertencente às estórias infantis. Pergunto-me porque nós, escritores – no sentido dos que escrevem – não admitimos nossos desenhos na orelha das folhas como partes constituintes de nossas obras. Como se a distração e o (des)estresse, permeassem todo o processo.

Desenho círculos enquanto escrevo. Círculos, que fazem meus pensamentos driblarem as travas que não me permitem entende-los. Um dentro do outro, desenho sem compasso, apenas as tortas cordas da minha imaginação alinhando-se em linhas circulares. De dentro para fora, de fora para dentro, limitada apenas pela incapacidade de rotação infinita do meu pulso, as linhas (des)organizadas da minha mente circulam agora palavras, não mais desenhos, palavras-desenho.

Para fora, inspiro. Para dentro, expiro. E essa respiração acalma o turbilhão de informações das mentes inquietas. Eles vão entre anotações, na ponta do caderno, pela mesa e em súbito sobe o meu corpo. Se ao criar minha mente estupefata grita para fora daquilo… Desenho círculos para dentro…

Dos músculos das pernas à pélvis numa dança dos quadris até o umbigo. O abdômen inspira círculos para fora, expira círculos para dentro. Círculos para fora, círculos para dentro. Círculos para fora, círculos para dentro. Um momento de perceber o respiro. Quando invadem meu coração, meus pensamentos envolvem-se numa constelação rizomática onde reencontro as estórias infantis. Nós somos o conto das crianças.

Os desenhos na orelha das páginas são parte de quem conta o conto, mas escrevemos estórias sem tatuar no papel os efeitos de nossa força imaginativa. As linhas vão tortas no papel, para que a escrita seja certa. Incerto é o movimento, que inspira e expira a todo o momento, devorando páginas e páginas de caderno.

Páginas e páginas de caderno.

Mesas e mesas.

Corpo a corpo.

Escrito.

Texto de Samyres Amaral